Lembrança de morrer: Álvares de Azevedo

Lembrança de morrer faz parte da obra moribunda de Álvares de Azevedo. Este e outros poemas retratavam sua tristeza de, ainda em tenra juventude, lidar a mortal tuberculose. O livro da qual esta obra faz parte, Lira dos vinte anos, pode ser adquirido neste link



Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento

Não quero que uma nota de alegria

 Se cale por meu triste passamento


Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto o poento caminheiro…

– Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro…


Como o desterro de minha’lma errante,

Onde fogo insensato a consumia,

Só levo uma saudade – é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade – e dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas

E de ti, minha mãe, pobre coitada

Que por minhas tristezas te definhas!


De meu pai… de meus únicos amigos, 

Poucos – bem poucos! e que não zombavam

Quando, em noites de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda, 

É pela virgem que sonhei!… que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!


Ó tu, que à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores…

Se vivi… foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo…

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu! eu vou errar contigo!

PRECISANDO DE AULAS DE ARTES PARA ESTUDOS OU PARA MINISTRAR PARA SUA TURMA? CLIQUE AQUI E VEJA O QUE EU PREPAREI PARA VOCÊ.


Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

Á sombra de uma cruz! e escrevam nela:

– Foi poeta, sonhou – e amou na vida. –


Sombras do vale, noites da montanha,

Que minh’alma cantou e amava tanto,

Projetei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe um canto!


Mas quando preludia ave d’aurora

E quando, à meia noite, o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos…

Deixai a lua pratear-me a lousa!

Deixe um comentário